Classificar Pequena coreografia do adeus, de Aline Bei, é tarefa dificílima. O livro é estruturado em versos que brincam com elementos visuais (tamanho da fonte, disposição do texto na página, espaçamento entre letras) e faz uso de linguagem poética para exprimir sentimentos, sensações, experiências. O texto de Aline também tem ritmo, que remete tanto à forma da poesia quanto à coreografia do título e do balé no meio da história. Em relação ao formato, poder-se-ia pensar num híbrido entre poema e prosa poética. O ritmo também faz alusão direta ao movimento da menina Júlia de aos poucos se libertar do ambiente familiar tóxico e construir, aos poucos, uma nova vida para si mesma. Como numa dança, esse processo não acontece de forma linear; pelo contrário, é marcado por avanços e retrocessos que se alternam durante sua infância e adolescência. Júlia é filha única de pais infelizes que se separam em algum momento de sua infância. A mãe de Júlia é controladora, agressiva e se comunica aos berros com o marido e a filha; o pai de Júlia, Sérgio, é quase uma ausência, a qual se concretiza quando ele decide deixar a casa. No meio do conflito perene entre os dois, há Júlia, o alvo favorito da violência da mãe. A violência materna se manifesta das formas mais cruéis: policiamento das roupas íntimas de Júlia quando os primeiros corrimentos femininos aparecem; comparação entre a beleza de Júlia e de uma moça que ajudou a mãe a carregar sacolas na feira; e, claro, agressões físicas, objetos atirados, pertences pessoais destruídos do quarto de Júlia. Neste cenário, não há espaço para que os pais se interessem pela vida da menina: não sabem o quanto ela gosta de escrever, nem o quanto a música é importante na vida dela. E é a partir da escrita de um diário que a vocação profissional de Júlia se revela: mais tarde, quando se muda da casa da mãe e decide alugar um quarto de pensão, Júlia começa a escrever um pequeno conto e pede dicas a um colega de pensão que seguiu a carreira de escritor. Os abandonos são um tema recorrente no livro. A avó materna de Júlia fora abandonada grávida pelo avô, e passa a ser rejeitada pelos vizinhos e amigos da cidade; a mãe de Júlia é abandonada pelo pai da garota. E Júlia também é vítima do abandono: a saída do pai de casa, a mãe que nega à menina o amor de mãe, a amiga de infância que apanha de Júlia quando a menina vê o pai de mãos dadas com outra mulher. No meio da aridez de afeto e acolhimento do núcleo familiar, a diretora do colégio oferece uma alternativa para que Júlia elabore seus sentimentos e a separação dos pais: a dança, mais especificamente, balé.Este é o primeiro passo para que a menina possa se desvencilhar do controle sufocante materno. É na dança que ela experimenta colocar corpo e alma, e treinando com afinco consegue passar mais horas longe da mãe. A professora de balé, porém, percebe a falta de talento de Júlia e a desencoraja a continuar a prática. Ainda assim, o primeiro experimento de liberdade abre as portas para que ela consiga construir sua individualidade longe dos laços tóxicos familiares.Pequena coreografia do adeus é a história de uma menina que cresce e forma a própria individualidade em meio ao abuso da mãe e à ausência do pai. Faz uso de recursos variados para sobreviver, em particular a escrita de um diário e a dança. Como por milagre, a menina floresce na aridez a seu redor, descobre-se mulher e é capaz de retribuir a violência dos pais com amor e sensibilidade ao universo particular do outro. Trata-se, em especial, de uma história de esperança - não apenas para Júlia mas para todos nós.